quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um Dia de Trabalho

Mamãe me acordou cedo e falou que hoje eu ia tomar muito sorvete se me comportasse bem direitinho.




Ela me deu banho, me colocou numa roupa linda (eu insisti em usar a minha bota legal) e me levou pra um lugar muito diferente, com o chão igual um tabuleiro de damas e uns bancos vermelhos. Tinha outras meninas lá, e a mamãe falou pra eu ficar amiga delas.
A Stephanie é loira e a Joana é ruiva, e como eu sou morena as mamães falaram que a gente fazia um trio muito legal.
Aí deram papel e lápis colorido pra gente ficar desenhando enquanto os tios montavam um monte de aparelhos, só que isso demorou muito e eu falei pra mamãe que eu estava com fome. Eu fui a única que falei, as outras estavam brigando por causa do lápis rosa. Elas tinham cinco anos que nem eu.

A mamãe falou que ela não podia fazer nada, que a diretora não tinha chegado ainda e que isso era um absurdo. Quando viu que eu não tinha entendido nada, ela falou que era pra eu guardar minha fome pra hora de tomar sorvete.
Aí veio uma tia e falou que elas iam mexer no meu cabelo. A Stephanie quis ser a primeira, e a Joana não quis ir, mas como a Stephanie depois resolveu ficar com a mamãe dela, eu fui primeiro. Sentei numa cadeira alta e a tia falou assim: eu vou deixar você igual a uma mocinha dos anos 60!
Como eu não sabia do que ela tava falando, deixei ela fazer um rabo de cavalo feio em mim e me colocar num vestidinho desconfortável. Mas eu não reclamei, porque senão a mamãe ia brigar comigo.
A Stephanie chorou porque queria um vestido, e a tia teve que mudar a roupa dela, e a Joana chorou porque não gostou da maquiagem. Faz tempo que eu aprendi a não chorar com essas coisas.
A mãe da Stephanie perguntou pras tias se elas conseguiam esconder as orelhas de abano da Stephanie, e eu vi que a Stephanie não gostou muito, mas a mãe riu e falou que ela tinha orelha de abano mesmo, então que era pra esconder. A tia cabeleireira ficou um pouco chocada com isso e falou que as orelhas da Stephanie eram lindas.
Os dois meninos que tinha lá - um velho, de nove anos, que era legal, e um pequeno, de quatro anos, que nunca entendia o que era pra fazer - tavam brincando de jogar aviãozinho de papel, mas os tios que tavam montando os aparelhos mandaram eles pararem porque as luzes que iam ficar no chão podiam queimar alguém.

Finalmente a chefe das tias chegou, com um monte de sanduíches e refrigerantes, e a gente comeu um monte, e depois tivemos que fazer toda a maquiagem de novo.
Aí a tia falou assim que era pra gente aprender a dançar com uma outra tia, que era muito simpática e perguntou os nomes e as idades de todo mundo e colocou uma música muito legal e mandou a gente dançar assim.
A Stephanie começou a chorar porque não sabia dançar, mas a tia foi muito legal com ela e ensinou um jeito que ela conseguia.
Só que as tias da maquiagem ficaram irritadas com a gente dançando e pulando, e fizeram a gente tirar as roupas novas e colocar as velhas, porque não podia dançar com o figurino.

Aí chegou um tio com a câmera e um tio todo suado, e falaram se a gente queria comer sorvete. Sim! A gente gritou.
Que bom, falou ele, então vocês vão pegar essa canequinha assim - era uma canequinha muito legal, tinha em forma de bicho, em forma de menina e em forma de menino - e sacudir ela com o rosto da caneca pra frente, assim!
E era complicado agitar a caneca e dançar que nem a tia tinha ensinado, mas o tio suado estava impaciente então a gente fez o que ele queria.
A Stephanie e a Joana brigaram porque as duas queriam ficar com a caneca de menina, e o tio acabou deixando.
O menino mais novo já queria ter ido pra casa faz tempo, e não quis mais brincar.
O tio suado bem que tentou, mas o tio da câmera falou que a gente era muito melhor que aquele menino chato e mandou a gente dançar na frente dele, segurando a caneca em direção à câmera. A gente teve que fazer isso várias vezes, porque toda vez que o tio da câmera tentava filmar a gente, o menino mais velho esquecia de sorrir, a Joana esquecia de dançar e a Stephanie dançava de costas pra câmera. A mãe do menino mais novo estava super nervosa, acho que ela não sabia que mesmo que a criança não participe da brincadeira os pais ganham o dinheiro que a mamãe sempre fala que eu vou usar quando crescer pra comprar o que eu quiser.
O menino mais novo não queria mais brincar, e tava chorando, e a mãe tentava arrastar ele pra frente da câmera e o tio da câmera falou que agora não adiantava mais porque ele tava cheio de meleca escorrendo do nariz.
Eu estava adorando, porque adoro sorrir pra câmera.
Só que tava ficando cansada daquilo, tava demorando muito, e o tio suado falou quem quer sorvete! E depois de um tempo, em que as moças no balcão bonito que tinha lá ficaram louquinhas tentando preparar tudo, veio um monte de sorvete, com bala, chocolate, granulado e cobertura, e a gente só tinha que comer e fazer cara de "hmmmm..." pra câmera.
Só que como a gente tava faz tempo querendo o sorvete, a primeira leva acabou em dois minutos e tiveram que por mais, porque não deu tempo de filmar.
Logo a gente não aguentava mais, era a quinta porção de sorvete que punham na nossa frente, e queriam que a gente comesse com cara de "hmmm..."
A Stephanie derrubou sorvete na mesa, e o tio suado quis limpar, mas a chefe das dias falou, não, não, deixa, assim parece mais natural, mas infantil. Só que eu acho que ela mudou de idéia quando o tio começou a filmar e a Stephanie estava lambendo a mesa pra não desperdiçar sorvete.

A mamãe me levou no banheiro e me deu uma bronca. Que amanhã cedo a gente tinha uma sessão de fotos no interior, que eu ia ter que viajar, e ficava comendo porcaria e ia ficar gripada de tomar tanto sorvete, e que se eu ficasse doente ia fazer as fotos doente mesmo! E eu nem liguei, porque a mamãe sempre fica estressada quando estou filmando um comercial.

Depois de muito tempo, já era de noite, e a chefa das tias falou que a gente podia ir embora. A mamãe relaxou assim que entregaram o cheque, e falou que todo o dinheiro vai pra uma conta no banco que eu vou poder usar quando crescer pra comprar tudo o que eu quiser.
Eu acho isso super legal. Nem a mamãe nem o papai trabalham, eles só ficam me levando nos comerciais pra eu ter o dinheiro quando eu crescer, acho isso super altruísta da parte deles.

3 opiniões externadas a respeito:

Homem-Atômico disse...

AINDA BEM Q EU NÃO TRABALHO COM ISSO!!!!









aphers

mari.portela disse...

HAHAHAHAHAHAH...

acho super altruísta da parte deles!!!

adorei que essa criança tem tipo o vocabulário da Turma da Mônica, suuuper avançado. Hahahaha... ameeeei o texto, amiga!!!

Lua disse...

Passem no meu blogue: www.certezasdeincertezas.blogspot.com